Índices Econômicos e da Construção
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Tipo Artigo: Área Técnica

01/02/2011 08:57

Queda de edifício: fato isolado ou repetição de falhas?

Fonte: Arq. Antonio Roberto Salles Rossi - Perito e Membro do IBAPE/SP

Há cerca de dois dias fomos surpreendidos com a notícia de que um edifício de 34 pavimentos, em Belém-PA, em fase final de construção, quando parte do revestimento externo estava sendo aplicado, desabara, causando vítimas não só entre seus operários como de uma de suas vizinhas.

Como é de praxe, nesses casos, um corpo técnico formado por peritos fará uma investigação sobre o que restou da obra, buscando apresentar através de um Laudo Técnico as causas e, quando for o caso, as responsabilidades sobre o ocorrido.

Quando se pensa em patologia da construção, deve-se ter em mente que toda e qualquer anomalia é resultado da combinação de uma série de variáveis. A construção do problema decorre de falhas não observadas no tempo oportuno, estando ligada, entre outras coisas, a escolha do terreno, a concepção dos projetos, a execução da obra e ao seu controle de qualidade.

Por outro lado, para o exame do caso em tela, os peritos deverão partir para a investigação de três elementos básicos:

Reconhecimento do terreno: através de sondagem, pode-se determinar o tipo e as características do solo quanto as questões de umidade ou presença de veios d’água, integridade e resistência. Com base nessa informação é que se define que tipo de estrutura deveria ter sido adotada para suportar a obra ‘pronta’. Feito isso, cabe a análise comparativa com o que consta de projeto.

Da análise do entorno nota-se que existem outros prédios ali construídos e há alguns anos, o que demonstra que as condições do terreno eram, em princípio, propícias a sua execução. Exceto pelo fato de que esse 'era' o mais alto ali em construção. 

Reconhecimento da estrutura: através da análise laboratorial de amostras retiradas dos escombros é possível se determinar a resistência da estrutura de concreto armado (vigas, colunas, lajes) bem como se fazer a reconstituição dos traços do concreto (ex. quanto de areia, cimento e pedra foram utilizados no processo de usinagem). Essas informações são importantes, pois servem para apurar o que de fato foi executado, bem como se houve o correto controle. Assim como no caso do terreno, cabe aqui uma análise comparativa com o que consta nas recomendações do projeto estrutural.

Do exame das fotos publicadas um ponto chama atenção: colunas/pilares esbeltos, de baixo até o topo. Em se tratando de um edifício com tantos pavimentos, resta saber se isso foi uma opção de projeto e qual a margem de segurança adotada ou se havia uma compensação em quantidade de apoios.

Reconhecimento do peso próprio: através da análise documental dos projetos executivos, do memorial descritivo, de onde se extrai o material de obra (alvenaria, lajes, estrutura etc.) e de acabamento (argamassa, pastilhas etc.), assim como do diário de obra e de relatório fotográfico do edifício, anterior ao dia do acidente, pode-se estabelecer uma relação entre o que foi projetado e o que foi de fato aplicado. Esse conjunto de informações, talvez o mais importante, ajudará a definir se houve falta de informação na elaboração do cálculo bem como se foram considerados elementos (de acabamento, por ex.) efetivamente utilizados, ou ainda, qual a carga a estrutura estava de fato sujeita, frente aquilo para a qual foi projetada.

No passado, em São Paulo-SP, um edifício executado por uma das mais importantes construtoras da capital a época, havia sido projetado para conter uma piscina em cada um dos terraços de seus apartamentos (1 por andar). Na ocasião em que se iniciou o enchimento das mesmas com água, a estrutura de suporte começou a apresentar anomalias. Exames feitos posteriormente indicaram que no cálculo da capacidade de suporte da estrutura, deixou de ser considerado um único elemento: o peso próprio da água.

Embora, salvo exceção, toda estrutura seja calculada tendo como ingrediente um fator (‘margem’) de segurança, resta saber se esta seria suficiente para suportar algum elemento ‘não previsto’ (ex. fachada com revestimento de argamassa ou de argamassa MAIS pastilhas cerâmicas; pisos internos em carpete de madeira ou pedras de granito) em sua base de cálculo.

Sabe-se que a obra veio abaixo após queda de um raio e rachadas de vento. Isso somado ao que foi dito acima, explicaria o ocorrido: seria resultado da combinação dessa série de variáveis, aqui desfavoráveis (ex. altura + estrutura + corrente de ventos + peso).

Os peritos trarão as respostas, porém, elas não deveriam se limitar a responder pelo fato ocorrido, pelo contrário, deveriam servir de recomendação ou mesmo de referencial para que outros profissionais e outras obras não tenham que passar pela mesma fatalidade. Afinal de contas, a vida humana é muito mais importante que qualquer atividade comercial.

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